Oriente Médio

Síria e Rússia reformulam presença em Hmeimim e Tartous sob novo marco

Um memorando transfere instalações civis designadas a Damasco e converte locais militares russos em centros conjuntos de treinamento, preservando o acesso de Moscou e reduzindo os privilégios excepcionais de suas antigas bases.

Audio Dispatch

Ouvir este artigo

Pronto para ouvir

Síria e Rússia assinaram um memorando que transfere a Damasco instalações civis selecionadas no litoral sírio e converte locais militares russos em centros conjuntos de treinamento e qualificação. O acordo segue cerca de 18 meses de negociações sobre Hmeimim e Tartous e estabelece uma base revista para a continuidade da presença de Moscou após a queda de Bashar Assad.

A Síria assumirá o controle do Aeroporto de Hmeimim e do quarto berço comercial do porto de Tartous, com os dois locais incorporados gradualmente à administração civil. As instalações militares funcionarão sob arranjos destinados a proteger os interesses dos dois governos, e a transição deve ser concluída em três meses antes da entrada em vigor do novo marco.

A estrutura concede ao governo sírio de transição maior autoridade sobre instalações que simbolizavam soberania fragmentada, enquanto permite à Rússia preservar acesso estratégico. Analistas caracterizaram a fórmula como redução dos privilégios especiais de Moscou, não uma retirada, trocando a exclusividade das bases tradicionais por uma presença politicamente mais sustentável.

A postura regional russa dependeu por anos da instalação naval de Tartous e da base aérea de Hmeimim, na província de Latakia. Tartous oferecia capacidade de reparo e reabastecimento no Mediterrâneo, e Hmeimim servia como centro aéreo e logístico após a intervenção direta de Moscou em 2015 para apoiar Assad na guerra civil iniciada em 2011.

Nanar Hawach, do International Crisis Group, avaliou que Moscou prioriza a continuidade do acesso acima de seus antigos privilégios. Nessa leitura, resolver a situação das bases remove a disputa bilateral mais sensível e permite que Damasco e Moscou tratem separadamente petróleo, dívida e outras divergências, dando ao governo sírio maior margem de negociação.

Joshua Landis, da Universidade de Oklahoma, argumentou que administração civil e treinamento conjunto permitem a Damasco preservar relações com a Rússia enquanto sinaliza ao Ocidente que não está mais fixada na órbita de Moscou. Ele também viu o papel russo restante como instrumento caso países ocidentais não ajudem a reconstruir as forças sírias ou pressionem Israel sobre os territórios ocupados depois da queda de Assad.

A implementação continua incerta apesar do prazo de três meses. Samy Akil, do The Syria Report, alertou que transferências desse tipo podem sofrer atrasos e avaliou que Damasco provavelmente manterá a relação com Moscou como proteção enquanto amplia laços com o Ocidente. O contingente russo é estimado agora entre várias centenas e 1.000 pessoas, ante dezenas de milhares durante a guerra, mas as forças sírias ainda dependem fortemente de equipamentos russos.

O arranjo, portanto, regula a posição russa em vez de encerrá-la. Damasco pode apresentar a transferência como ganho de soberania e legitimidade, enquanto Moscou preserva acesso ao Mediterrâneo e uma parceria militar com menor custo político. O equilíbrio dependerá da implementação real e do esforço sírio para diversificar relações sem ficar exclusivamente dependente da Rússia ou das potências ocidentais.